O prazer é incessantemente enganado, reduzido, desinflado, em proveito de valores fortes, nobres: a Verdade, a Morte, o Progresso, a Luta, a Alegria, etc. Seu rival vitorioso é o Desejo: falam-nos sem cessar do Desejo, nunca do Prazer, o Desejo teria uma dignidade epistêmica, o Prazer não. Dir-se-ia que a sociedade (a nossa) recusa (e acaba por ignorar) de tal modo o gozo, que só pode produzir epistemologias da Lei (e de sua contestação), mas jamais de sua ausência, ou melhor ainda: de sua nulidade. É curiosa esa permanência filosófica do Desejo (enquanto nunca satisfeito): essa palavra não denotaria uma "idéia de classe"?
(Presunção de prova bastante grosseira, e todavia notável: o "popular" não conhece o Desejo- nada mais exceto prazeres.)
Roland Barthes
(In: O Prazer do texto)
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